Ainda sinto as tuas mãos quentes nas minhas costas, os meus lábios ainda tocam na tua testa e as tuas palavras ainda soam nos meus ouvidos. Ainda te vejo na janela a observar o mundo, o banco ainda tem o teu corpo sentado, e os cafés ainda te esperam arrefecidos na mesa da cozinha. Ainda olho a tua cara com clareza, as feições do teu rosto envelhecido. A tua voz doce e tremida ainda disparam palavras na minha vida. Aquele fatídico dia, que eu tanto quis adiar chegou, e um ano passou a correr. Fazes-me falta, o teu sorriso, os teus gestos, a tua ligeira respiração, o teu coração que batia leve. Faz-me falta a forma vagarosa como caminhavas, e o teu sopro de vida. Tu fazes-me falta. E a dor que eu carrego em mim é saudade, mas alivia-me saber que já não carregas o peso de um coração cansado, e um corpo abalado pelo tempo que por ti passou, pelas sete décadas que carregaste. Deixas pessoas com os olhos carregados de lágrimas, que hoje, passado um ano te prestarão homenagem. Eu deixo-te partir, pois sei que estarás feliz por cada um seguir os seus caminhos, conforme querias e assim os educaste. Tenho saudades tuas, repito, e hoje mais uma vez choro. Carrego em mim a saudade, e o amor que sempre irei nutrir por ti. Carrego em mim a vida que deixaste em nós. Carrego em mim as recordações da pessoa que foste... da esposa, da mãe e da avó. Carrego em mim tudo o que me ensinaste. Digo-te uma última vez em voz alta: és a mulher da minha vida.