8.3.10

volta ao mundo.

 Deixei a conta da meu coração, sobre a tua cama.
 Deixaste-me sem um beijo de despedida, sem aviso prévio para eu me poder prevenir para a tempestade que se iria abater sobre a minha vida e que me fez ruir como cartas de papel.
 Isso fez-me sofrer. Sofri tanto quando li aquele bilhete que deixas-te pousado em cima da almofada maior, aquele bilhete que nem envelope tinha, não era nem de longe parecido com aquele que me ofereces-te no dia dos namorados, aquele envelope que era vermelho e dizia "para a mulher da minha vida", aquele envelope que dentro tinha um bilhete com destino para a felicidade, em que o guia turístico tinha escrito as tuas juras de amor.
 Depois de ler esse bilhete de regresso, fiquei com tamanha raiva de ti, raiva que odiei sentir, foi uma revolta enorme, se naquele momento tivesses aparecido à minha frente, acredita que era capaz de te matar.
 Bati com a porta com forças que nem sabia que existiam dentro de mim, fui à tua procura, tudo o que te queria dizer estava na ponta da minha língua e senão te confrontasse, explodia. Procurei no parque onde costumávamos passear, procurei no café mesmo em baixo de minha casa, aquele onde costumávamos ir lanchar, procurei na paragem do autocarro (...) procurei em todo o lado, mas não te achei. Liguei-te milhares de vezes, mas ou tu rejeitavas, ou nem te davas ao trabalho de ir ao botãozinho vermelho desligar, simplesmente ignoravas, ia parar ao voice-mail, deixei-te imensas mensagens para me ligares de volta, mas não obtive resposta, no fundo o que eu queria, era saber o que te fez deixar-me, o que eu fiz de errado, é que eu fiz de tudo para dar certo, se calhar vivi mais a tua vida do que a minha, amei-te mais a ti do que a mim mesma e esse foi o meu único erro.
 Dias depois vi-te na escola, cobarde como tu foste daquela vez em que me deixas-te o bilhete em vez de me dizeres olhos nos olhos, baixas-te a cabeça e seguis-te sempre em frente, passaste mesmo ao meu lado e agiste como se nunca tivéssemos tido história. Ainda assim continuei a defender-te perante todos, dizendo que o fizeste para meu bem e que se gostavas mais de ti próprio do que de mim, foi melhor assim, mas tanto eu como tu sabemos que fui um pretexto para os teus pais deixarem de pegar contigo, fui um pretexto para melhorares as notas na escola, um pretexto para teres companhia à noite, para esqueceres aquela tua ex namorada, que passava sempre por nós na escola, a de cabelo encaracolado e que te deixava sempre muito perturbado, nunca sentis-te saudades de mim, como dizias quando ficavas três minutos sem me ver, nunca gostas-te de mim como disseste naquele primeiro bilhete, o do envelope vermelho (...) fizeste-me sentir suja, usada, imunda, durante meses a fio e é por isso que nunca mais, nunca mais voltei a sonhar tão alto como sonhava, nunca mais voltei a chegar às nuvens.
 Por isso é que te deixei a conta do meu coração sobre a tua cama, espero que um dia devolvas a chave, porque só tu me a conseguis-te tirar.
 No fim fiquei louca, e percebi que o que interessa não é o destino mas a viagem e essa foi como a volta ao mundo.

4 comentários:

Sinceridade é o único requisito