5.2.11

IV

As pernas já me doíam, não aguentava mais correr atrás do Miguel. Ele sempre foi muito atlético e ainda vai ao ginásio uma vez por outra, tem boa resistência física. Já eu, nem que fosse ao ginásio todos os dias a teria.
Ele já está longe de mim e eu ainda vou gritando: "MIGUEEEEEEEEEEEEL, ESPERA!", o café pára todo só para olhar, a ver o que se passa e eu detesto quando isso acontece. O que as pessoas querem é espectáculo.
Fui ficando para trás, vi-o desaparecer por entre as portas grandes de vidro do café. Corri o mais que pude até à saída a ver se ainda o apanhava, mas quando lá cheguei as únicas pessoas que marcavam presença no passeio, eram as mesmas do costume: Um senhor que tem uma casaco castanho, mais comprido do que ele e que vende jornais; Um senhor que tem sempre a cara cheia de graxa e que dá um jeito aos sapatos das pessoas mais velhas que ainda se dão ao trabalho de lá parar e mais umas quantas que passavam por eles e nem se davam conta da sua existência; Ainda haviam umas duas pombas que bicavam restos de pão que as crianças deixavam por lá... mas nem um único sinal do Miguel. Desapareceu no ar? É que nem o carro dele está aqui por perto. Bem, foi rápido a fugir de mim. (pensava eu, desanimada).
Fui mesmo injusta, é horrível quando isto acontece. Eu devia ter confiado nele. Afinal de contas é meu namorado e eu conheço-o, melhor do que a mim própria (muito provavelmente) e já estamos juntos à tempo suficiente para isso: Faltam dois meses, para fazermos dois anos e meio e só ainda não vivemos juntos porque eu ainda não me decidi a mudar para casa dele, mas é como se vivêssemos. Já tenho uma gaveta com roupa minha, que fui deixando ficar lá e a minha escova de dentes está no mesmo sítio que a dele. Até tem os meus iogurtes favoritos e muitas vezes fui eu que arrumei a casa. Ele não tem tempo para essa coisas, por causa  do emprego que lhe ocupa muito tempo. E agora deitei tudo a perder. Quero ligar-lhe, mas tenho um certo receio.
Apanhei a primeira carreira que apareceu e saí perto do talho central. A paragem fica um bocado longe de casa e tenho de andar uns belos quinze minutos. Eu estou cansada e sem bateria no telemóvel para ligar ao Miguel. Acho que vou parar no parque que tem no caminho e ligar da cabine. Tenho uns trocados no bolso.
Comecei a acelerar o passo e mal cheguei perto da cabine marquei o número dele e...
Miguel: "Estou, Joana? Eu sei que és tu. Ainda bem que ligaste..."
Eu: "Sim, sou eu. Queria-te pedir desculpa Miguel. Já nos conhecemos à tempo suficiente para eu poder duvidar de ti. Desculpa, a sério..." (o Miguel, interrompeu-me. Estava com uma voz estranha, o que me estava a deixar assustada.)
Miguel: "Espera, não digas mais nada. Podes te encontrar comigo agora? Diz-me onde estás, que eu vou ai ter. Temos de ter uma conversa séria. Eu andava a adiar isto já a algum tempo. Mas agora estamos chateados e eles têm-me pressionado."
Eu: "Eles? Quem? Posso, anda ter comigo aquele parque perto de minha casa." (Eu estava cada vez mais assustada. E o Miguel, não adiantava o assunto.)
Miguel: "Então espera ai por mim. Já estou a ir."
Eu: "Mas Miguel, espera..." PIIII, ele já tinha desligado. E eu estou a morrer (por assim dizer).

(continua...)

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